segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Oficina de histórias em quadrinhos contra o bullying



André Brown[1]

Estive, nos meses de junho e julho de 2013, realizando oficinas de histórias em quadrinhos (HQ) com turmas do ensino fundamental do Instituto de Educação Fernando Rodrigues da Silveira CAp/ UERJ, junto à minha ex-aluna do curso de pedagogia (Edu/ Uerj), Érica[2], também estagiária de pedagogia nesta instituição de ensino e pesquisa. Na ocasião, desenvolvemos histórias em quadrinhos com os alunos sobre a temática “Solidariedade x bullying. A pesquisa Bullying no CAp: reconhecer para combater”[3], desenvolvida na instituição, desdobra-se em ões preventivas contra o bullying na escola. 




Quando fui convidado a  elaborar a oficina de HQ  abordando a temática do bullying com os alunos do ano do ensino fundamental, estava em contato com outras escolas, pesquisando os usos dos quadrinhos realizados por outros professores. Considerei oportuno, para minha pesquisa, fazer as oficinas, pois essas atividades poderiam possibilitar mais algumas percepções de aprendizagensino por meio das HQ. Fui informado sobre alguns detalhes do projeto, pré-existente às minhas idas à escola, em conversas e no texto de trabalho acadêmico quando Érica me passou os objetivos do projeto:


O projeto Bullying no CAp: reconhecer para combater” existe desde 2010 e marca uma compreensão que passou a informar a ação da coordenação pedagógica da unidade de que: (a) toda escola de ensino fundamental e médio precisa reconhecer o que são práticas de bullying ; (b) bullying no seu interior e, com isso, faz-se necessário dar um tratamento a essas práticas que impliquem em duas direções: (b.1) lidar com todos os envolvidos em cada caso expondo os seus problemas intrínsecos e desnaturalizando-os –, e (b.2) desenvolver ações de prevenção a atos de bullying, trazendo toda a comunidade para refletir sobre a questão e se engajar no projeto de mudar essa realidade. Desde então, diferentes atividades vêm sendo desenvolvidas no interior do projeto.


Durante a preparação para realizar a oficina de HQ junto aos alunos e professores daquela instituição, tomei conhecimento do projeto e imaginei como as criações de HQ poderiam proporcionar momentos de discussão e reflexão sobre o bullying. Precisei ler sobre o assunto, busquei pesquisas de alguns autores sobre o tema e as práticas de desconstrução do bullying. Segundo Lopes Neto (200 5, p. S154),

bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Essa assimetria de poder associada ao bullying pode ser consequente da diferença de idade, tamanho, desenvolvimento físico ou emocional, ou do maior apoio dos demais estudantes.


No decorrer de outras leituras que fui buscar, tive contato com manuais de combate ao bullying. Um desses manuais ensina a identificar e classificar os tipos de bullying, perfis de agressores bullies e vítimas ou alvos, testemunhas, e prescreve um programa contínuo antibullying na escola com algumas ações indicadas como psicoeducação, palestras na escola, para pais, professores e alunos, ensino de moral e ética, elaboração de constituição escolar antibullying e alguns mecanismos de controle. 


No entanto, observei que sistemas de punição não são tão eficientes como algumas vezes é relatado em programas antibullying. Tenho percebido, nos meus contatos com estudantes das diversas escolas na minha vida de professor e durante minha pesquisa, as preocupações de pais e professores com casos diversos e recorrentes de bullying

Simultaneamente, durante a elaboração da oficina, estava lendo textos sobre solidariedade na educação, nos aspectos de pesquisa nos/ dos/ com os cotidianos das escolas (ALVES, 2001) e também em obras específicas sobre educação solidária. Na minha experiência de professor, tenho identificado que, na maior parte das vezes, falta o diálogo, o respeito mútuo, o afeto, a solidariedade e as conversas com as crianças e jovens que praticam e sofrem o bullying. Alguns estudos apontam para as vítimas dos casos de bullying com um comportamento mais inibido, como explica Lopes Neto (200 5, p. S170), os alvos de bullying

em geral, não dispõe de recursos, status ou habilidade para reagir ou cessar o bullying. Geralmente, é pouco sociável, inseguro e desesperançado quanto à possibilidade de adequação ao grupo. Sua baixa autoestima é agravada por críticas dos adultos sobre a sua vida ou comportamento, dificultando a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos, é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, medo, depressão e ansiedade. Sua autoestima pode estar tão comprometida que acredita ser merecedor dos maus-tratos sofridos.


Pensei que a oficina de HQ poderia começar com algumas conversas sobre bullying e solidariedade como contraponto, mas com muito cuidado para a atividade não virar uma inculcação, uma oficina de HQ com discurso moralizante. Queria tentar um processo dialógico a partir das próprias reflexões deles, funcionar apenas como um facilitador das discussões e das elaborações dos quadrinhos, mesmo que a oficina fosse resultado de uma “encomenda” prévia para trabalhar os quadrinhos com a temática do bullying, muito oportuna para minha pesquisa em andamento, não tinha o interesse de impor aos alunos e professores envolvidos na atividade minha visão sobre o assunto. A limitação de tempo com cada turma me preocupava, tanto para o desenvolvimento da atividade quanto para realizar os registros de pesquisa das práticas com as HQ na sala de aula. Havia o risco de a minha ação ser diretiva demais, conduzindo a atenção e o trabalho dos alunos para o meu interesse de pesquisa. Precisava, então, controlar minha ansiedade, deixar o processo fluir por eles mesmos além da minha apresentação inicial para os alunos da proposta de trabalho com quadrinhos, que poderia ser aceita ou não.

No dia marcado para as oficinas, logo que entrei em sala de aula fui apresentado à turma. Escrevi, no quadro branco, a palavra bullying e pedi para que eles me falassem o significado da palavra, o que fizeram com facilidade, trazendo, em suas falas, as diversas formas de bullying que já tinham estudado, como o cyberbullying e suas variações. O mesmo fiz com a palavra “solidariedade”, e eles disseram o que entendiam sobre o assunto já estudado na escola. Um aluno descreveu solidariedade como “maneiras de ajudar outras pessoas”, citando desabrigados das chuvas, seca do nordeste, campanhas solidárias decorrentes de situações trágicas. A professora problematizou e perguntou se, só nessas situações limites, podemos ser solidários. Alguns alunos falaram de solidariedade no dia a dia, nas relações interpessoais, nos trabalhos colaborativos, ideias que tinham conversado em outras aulas.

Com essas ideias no ar e sem apontar para alguma conclusão da conversa, pedi que fizessem os quadrinhos, mostrei usos básicos da linguagem, balões, personagens, roteiro, desenho e sequência de imagens. Organizaram-se em grupos de quatro alunos e começaram a elaboração das HQ.

A estagiária Érica esteve trabalhando junto comigo o tempo todo durante a oficina, fazendo registros de imagem, anotações que, posteriormente, serviram de referencial para elaboração de texto acadêmico apresentado na 13ª Semana de Graduação da Universidade do Rio de Janeiro, 2013. Parte desse texto conta um pouco do que fizemos na oficina:

De acordo com a prática realizada na oficina “Histórias em quadrinhos contra o bullying”, que provoca os(as) alunos(as) a contação, interpretação e elaboração de histórias em quadrinhos relacionadas ao tema, motivamos os estudantes a refletirem e debaterem sobre o que é o bullying, como ocorre e como agir durante a situação. Com isso, foram ensinadas técnicas de desenho como forma de expressão para expor e problematizar o tema; e, além disso, intervir diretamente nas atitudes dos alunos(as) diante de uma situação de bullying, foi o objetivo central da atividade.

No evento, foi apresentado o pôster:

Todos os trabalhos elaborados foram realizados sob as mesmas condições de produção para todos os alunos da mesma turma, durante a oficina de quadrinhos em sala de aula. O tempo de elaboração e apresentação foi relativo a dois tempos de aula totalizando uma hora e quarenta minutos. Os materiais utilizados foram aqueles disponíveis em sala de aula: lápis 2B, giz de cera e lápis de cor sobre papel sulfite branco formato A4. Cada grupo de alunos escolheu sua maneira de fazer os quadrinhos, alguns partiram direto para os desenhos das páginas, outros preferiram escrever as histórias e depois desenhar. Nem todos quiseram fazer os quadrinhos completos, alguns deixaram a HQ sem conclusão e uma aluna preferiu fazer apenas a expressão de um agressor bullie. Os trabalhos foram realizados em grupos pequenos de até quatro alunos. Cada grupo estabeleceu a sua própria dinâmica de trabalho, mas percebi que, em cada grupo, um aluno(a) ficou responsável pelo desenho. A criação das narrativas, argumentos, passaram por conversas e organizações diferentes do trabalho coletivo.


Com os roteiros e as HQ prontos, os próprios alunos pediram para apresentar os seus trabalhos com seus grupos na frente do quadro branco, prenderam suas HQ no quadro e, para minha surpresa, fizeram contações das histórias e a dramatização dos personagens das HQ que produziram, atividade não sugerida por mim nem pelas professoras. As apresentações foram registradas pela escola em fotos e pequenos vídeos, aos quais não tive acesso e não pude usar nesse trabalho em função da preservação das imagens de alunos e professores. O trabalho fluiu bem, principalmente pela adesão e pela participação efetiva dos professores e dos alunos do CAp para a realização da atividade.

Revendo as HQ elaboradas pelos alunos e pensando nessa pesquisa sobre as práticas de aprendizagensino com as histórias em quadrinhos, consegui perceber que, além da riqueza dos processos de imaginação e elaboração ocorridos durante a atividade, os trabalhos concluídos registram pistas, indícios que servem para análises posteriores. Os usos da linguagem dos quadrinhos e seus elementos na educação vieram à tona nessa atividade, também, a partir da percepção e da memória dos estudantes de outras HQs e personagens desenhados. Percebi, também, que, sobre o tema trabalhado, no caso da atividade com essa turma o bullying, por meio das HQ, foi possível compreender, nas narrativas quadrinizadas, como acontecem algumas situações de bullying, suas lógicas, práticas e trajetórias, nem sempre percebidas por professores e pais no cotidiano. As histórias em quadrinhos apontam, também, como os estudantes e professores lidam com o problema. 

Nossa oficina de histórias em quadrinhos contra o bullying poderá ser realizada sempre que necessário e certamente será útil para a identificação e compreensão das situações de bullying em escolas e outras instituições.


*Esse texto é um resumo de parte da tese de doutorado do autor intitulada "Os usos das histórias em quadrinhos: processos de aprendizagensino nas escolas e em outros espaços educativos" indicada nas referências abaixo, capítulo 7 "OFICINA DE HQ NAS REFLEXÕES SOBRE O BULLYING".




Referências:

ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho: o cotidiano das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; ALVES, Nilda (orgs.). Pesquisa no/ do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP& A, 2001.
BROWN, André (2014). Os usos das histórias em quadrinhos: processos de aprendizagensino nas escolas e em outros espaços educativos. 2014. 316 f. Tese (Doutorado em Educação)-ProPEd-Uerj, Faculdade de Educação da Uerj, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: < http://www.proped.pro.br/teses/teses_pdf/2004_1-46-DO.pdf > Acesso em: 17 maio 2015.

FREIRE, Paulo; FREIRE, Nita; OLIVEIRA, Walter Ferreira de. Pedagogia da solidariedade. Indaiatuba, SP: Villa das Letras, 2009.
LOPES NETO, Aramis A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 81, n. 5, 200 5. Disponível emhttp://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572005000700006&script=sci_abstract&tlng=pt >. Acesso em: 5 dez. 2013.




[1] André Damasceno Brown Duarte – Doutor em Educação (ProPEd/Uerj-2014), Desenhista. brownideia@gmail.com
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7115745103613206

[2] Graduanda em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Uerj; bolsista do CAp-Uerj na pesquisa “Enfrentando o Bullying na Escola”, orientada pela Profa. Dra. Cláudia Hernandez Barreiros Sonco.

[3] O projeto faz parte da Linha de Pesquisa Educação e Diferença, do CAp-Uerj, da Profa. Dra. Cláudia Hernandez Barreiros Sonco, e tem como objetivos gerais: “Conhecer e analisar criticamente a instituição escolar como um espaço de convivência entre diferentes. Reconhecer e compreender as implicações dessa convivência. Analisar os conflitos e também os alinhamentos que ocorrem em seu interior em processos de inclusão, exclusão, afeto, violência, tolerância, preconceito”.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O cartum brasileiro resiste


André Brown

Mesmo que tenham atualmente espaço reduzido na imprensa convencional os cartuns continuam presentes na crítica política, social e de costumes. Cabe aqui definir o que é cartum:

o cartum é uma anedota gráfica; seu objetivo é provocar o riso do espectador. E como uma das manifestações da caricatura, ele chega ao riso através da crítica mordaz, satírica, irônica e principalmente humorística, do comportamento do ser humano, das suas fraquezas de seus hábitos e costumes. (...) O termo cartum origina-se do ing. cartoon, cartão, pequeno projeto em escala, desenhado em cartão para ser reproduzido depois em mural ou tapeçaria. A expressão, com o sentido que tem hoje, nasceu em 1841 nas páginas da revista inglesa Punch, a mais antiga revista de humor do mundo. (...) No Brasil, foi a revista Pererê de Ziraldo, edição de fevereiro de 1964, que lançou o neologismo cartum (BARBOSA; RABAÇA, 2001, p. 112-113).

O ano de 2019 marca o cinquentenário da fundação do jornal de humor “O Pasquim”, publicação icônica da imprensa alternativa brasileira que publicava caricaturas, charges, cartuns e que se tornou uma trincheira na luta pela democracia. “O Pasquim” fez parte do ciclo da imprensa alternativa contra a ditadura, resistência cultural que iniciou com a revista “Pif-Paf” publicada por Millôr Fernandes em 1964. Fundado em 1969 “O Pasquim”, durante 22 anos de publicação, reuniu vários cartunistas brasileiros.

Ao longo do tempo, a linguagem do cartum conquistou o teatro, os programas de Tv, o cinema, os desenhos animados, a literatura para crianças e jovens, os games, a publicidade e o mercado de entretenimento.

Atualmente, com a existência das mídias digitais e da conectividade ubíqua, os cartuns e suas personagens são utilizados com frequência em redes sociais, e-books e blogs.

No dia 5 de janeiro foi lançado o jornal de cartuns “+Humor” por cartunistas editores, alguns deles remanescentes de “O Pasquim” e de outros jornais e revistas de circulação nacional.



Os cartunistas idealizadores do jornal “+Humor” optaram por fazer jornal impresso de cartuns em formato tabloide para distribuição gratuita. Fazer circular os cartuns em um “jornal de papel” parece uma escolha inusitada em tempos de mídias digitais, porém a materialidade do impresso permite ressignificar os usos do jornal ao ser manuseado para leitura e práticas de desenho em atividades pedagógicas, workshops, exposições, e eventos culturais.

As linguagens desenhadas como a do cartum geralmente têm seus elementos utilizados em diversas elaborações culturais em diferentes mídias. Basta que os produtores de linguagem, os cartunistas, os editores tenham alguma nova motivação ou perspectiva de utilização e ainda será possível encontrar maneiras inovadoras de fazer uso dos cartuns, de seus elementos visuais e narrativos.




Referências:

BARBOSA, Gustavo; RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de comunicação. 2.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

PIF-PAF DE MILLÔR RENOVA O HUMOR E A CRÍTICA.
Disponível em: <http://memorialdademocracia.com.br/card/pif-paf-de-millor-renova-o-humor-e-a-critica?fbclid=IwAR05B6YVJxzjgoxB9L87R9l0n9gSDjXV8y9kaUSl0LFOhWDoDxYX3V1Mtus>. Acesso em 08 ago. 2019.

VIDIGAL, Enize. Nasce o jornal +Humor, o único impresso de charges do país. Disponível em: <https://www.oliberal.com/cultura/nasce-o-jornal-humor-o-%C3%BAnico-impresso-de-charges-do-pa%C3%ADs-1.57375>. Acesso em: 08 ago. 2019.

domingo, 2 de junho de 2019

Oficina de Desenho: Experiências de liberdade criativa e aprendizagem


André Brown

“A arte mais importante do professor é saber despertar nos alunos a alegria de criar e conhecer.”
Albert Einstein

Desde o início da década de 1990, atuo como desenhista, produtor de linguagens e “oficineiro”. No meu caso, o interesse pela linguagem do desenho antecedeu a minha formação em pedagogia. Hoje, faço uso das linguagens desenhadas no meu trabalho seja em sala de aula ou na pesquisa em educação. Muito dessa minha vontade de trabalhar com desenho e educação se expressou em experiências cotidianas, na minha própria Oficina de Desenho.


Oficina de Desenho na Casa de Leitura de Laranjeiras / Fundação Biblioteca Nacional em 1998.

Quando criei a Oficina de Desenho em parceria com a designer Alessandra Nogueira (ESDI/Uerj), eu já havia ministrado cursos livres em instituições como a Casa de Leitura de Laranjeiras (Fundação Biblioteca Nacional) e em centros culturais. O projeto inicial da oficina foi pensado para ser realizado em escolas, mas depois estruturei um espaço próprio para iniciar o trabalho.  A partir de 2009 a Oficina de Desenho passou a integrar o Instituto Tocando em Você (ITV), uma parceria que deu certo e ampliou a abrangência da Oficina.

No ensino de desenho eu e Alessandra buscamos fundamentação nas obras de mestres que partiram da prática para elaborar seus trabalhos e pesquisas, como Fayga Ostrower, Betty Edwards, Rui de Oliveira,  Burn Hogart, Will Eisner, Scott McCloud entre muitos outros. Recentemente a Oficina de Desenho agrega em suas aulas, conhecimentos, estudos visuais e da cultura visual desenvolvidos pelas universidades públicas UFSM, UFRJ,  Uerj.

Desde o início da Oficina de Desenho foram realizadas as práticas de ensino fundamentadas pelas teorias dos pensadores da Educação, entre eles destaco Dewey, Vigostski, Rogers, Freinet e Freire.

Um exemplo de identificação de elementos das pedagogias na Oficina de Desenho é a aula-passeio indicada por Celéstin Freinet como prática de ensino. Com os alunos, visitamos e realizamos aulas de desenho ao ar livre na Floresta da Tijuca, no Jardim Botânico, no Passeio Público, na Praça da República, na Quinta da Boa Vista e no Jardim Zoológico.


Prática de desenho na Floresta da Tijuca  em 16/04/2000

A ideia de palavras geradoras, pensada e posta em prática por Paulo Freire para a alfabetização, usando palavras do cotidiano dos alunos, me inspirou a utilizar o que defino, por analogia, como imagens geradoras. Incluo nessas imagens fotos, pinturas, esculturas, ilustrações ou qualquer outra referência visual que sirva de estímulo à criação de novos desenhos em sala de aula.

Alunos com idades e níveis de desenvolvimento diferentes interagem durante as aulas da oficina, trocando conhecimentos enquanto realizam seus desenhos, tal qual escreveu Vigotski (1998) sobre a zona de desenvolvimento proximal, explicando-a como

a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (p. 112).
a zona de desenvolvimento proximal hoje, será o nível de desenvolvimento real amanhã – ou seja, aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã (p. 113).

Reconheço a importância de todas essas teorias terem perpassado o cotidiano da Oficina de Desenho. Com o conhecimento das metodologias de ensino e aprendizagem foi possível que alunos conquistassem a autonomia necessária para conseguirem autogerir suas elaborações, buscando seus próprios temas e técnicas com liberdade. Nessas ocasiões eu tenho sido um professor facilitador (Rogers, 1972), que acompanha as elaborações gráficas dos alunos, que algumas vezes usam o acervo de livros de arte, revistas e recursos no ateliê. Nesses processos de elaboração, as histórias em quadrinhos servem com frequência como referencial para praticar desenho e usos de elementos de linguagem, associando textos e imagens para compor narrativas.

Há 21 anos a Oficina de Desenho realiza metodologias alternativas (BROWN; CHRISPINO, 2017) exposições de alunos, professores, artistas convidados, desenvolveu projetos coletivos de criação de personagens, incentivou a publicação de jornais alternativos, fanzines, revistas, livros, quadrinhos independentes, produções imagéticas para mídias convencionais e digitais.


Impressora 3D tecnologia utilizada na Cultura Maker.

Recentemente a Oficina de Desenho está compondo novas parcerias com startups de tecnologia e inovação para realizar oficinas relacionadas à cultura maker. Brevemente serão divulgadas novas atividades da Oficina de Desenho para atender escolas e outras instituições de ensino, cultura, entretenimento e empresas.



Referências:

BROWN, André; CHRISPINO, Arthur. Cursos de férias: metodologias alternativas na formação continuada. Conhecimento & Diversidade, [S.l.], v. 9, n. 17, p. 112 - 126, out. 2017. Disponível em: <https://revistas.unilasalle.edu.br/index.php/conhecimento_diversidade/article/view/3799>. Acesso em: 02 jun. 2019.

ANDRADE, Karen. Guia definitivo da Educação 4.0 – Uma rede de conexões integrando pessoas e saberes. Planeta Educação. Disponível em: < https://www.google.com/search?q=guia+definitivo+da+educa%C3%A7%C3%A3o+4.0&oq=guia+definitivo+da+educa%C3%A7%C3%A3o+4.0&aqs=chrome..69i57.14127j0j1&sourceid=chrome&ie=UTF-8# >. Acesso em: 02 jun. 2019.

FREINET, Celéstin. A educação do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ROGERS, Carl R. Liberdade para aprender. 2 ed. Belo Horizonte, MG: Interlivros de Minas Gerais, 1972.

VIGOTSKI, Lev Semenovich. A formação social da mente – o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.